O amor das Marias
Não sei se foi em Belém. Nem se foi numa estalagem que o espírito de Deus inflou vida ao corpo do infante. Não tenho certeza se a mãe chegara virgem ao parto, e tampouco estou convencido de que anjos excelsos sussurraram ao ouvido materno que a criança seria a encarnação do sol. Resisto a verdades escritas. Pois verdades, para que assim o sejam, precisam se revelar aos olhos nus. Os que creem apenas pela leitura não são indivíduos de fé. São cultos, lustrados pela erudição. Mas é um saber que não lhes acrescenta nenhum fervor à vida, porque lhes falta o deslumbramento da revelação íntima. A história de que tanto falam nesses dias, tal como a contam, poderá nunca ter acontecido. Ou ter acontecido diversas vezes, com diversas Marias, em diversos lugares, numa justaposição de histórias. Mas o vulgar, o evento banal, nunca serviu de força inspiradora para a humanidade. É o fato extraordinário, a vida singular, a tragédia épica que irriga os corações de vontade, bravura...